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20 Maio 2009 Deixa a vida me levar E lá vai ele com aquela cara bonita demais. Regata branca mostrando os braços malhados e a cor do bronze que faz a filha do padeiro estremecer em lugares que nem sabia que existia no próprio corpo. E lá vai ele com aquele cheiro de macho novo, aquele charme que se mostra quando sorri apertando aqueles olhos castanhos. Faz vídeos dançando funck na sala de casa, come seis vezes ao dia, malha três vezes por semana. Chega o sábado e é dia de se encoxar com alguma piriguete gostosa no baile funck da comunidade. Domingo é dia de sambão e de comer carne (em todos os sentidos) no churrascão da laje até ficar estupefato. Dança agarrado na bunda daquela mulata que desde que ele chegou não parava de dar piscadas, enquanto a galera canta “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. E lá vai ele. E ele definitivamente não é eu. Por quê? Porque penso. Penso, logo complico. Ás vezes queria tanto ser normal, tanto. Mas não consigo porque penso. Penso e me aperto nessa dor que é viver, penso e penso em morrer. Penso e não consigo dar simplesmente tchau depois do rala e rola. Penso e não consigo colocar minha mão em cima da mão da mulata sem que ela me dê o aval nem que seja com um olhar. Penso e logo odeio que me toquem dentro do ônibus. Penso e tenho nojo do cheiro das pessoas. Penso e detesto gente feliz demais. Penso e prefiro me agarrar com um livro o domingo inteiro à passar o dia mastigando carne de gato na laje, e estourar meus tímpanos com a voz da mãe do Michael (isso mesmo, Michael com Ch que soa Maicol) que também é mãe da karolyne (Isso mesmo, karolyne com Y que pronunciado vira karolaine) gritando pra ele largar a prima de dezesseis anos com aquele cabelo alisado à força. Ninguém merece. Eu não mereço. De vez em quando o gostosão lá do início do texto aparece sem querer. E quando vi já tenho ido, feito, encoxado, dançado, cheirado, me apertado feito sardinha dentro dos ônibus, comido carne (em todos os sentidos) até me estupefar. Quando ele vai embora fico assim pedindo pro colchão me engolir, pedindo pro medo e o nojo que eu sinto desse mundo e de todo mundo me engolir logo de vez. Fico pensando (o que me faz cansar da vida). Fico assim desconcertado, idiota, atrapalhado, sem conseguir passar por nada sem arrastar junto comigo. Fico assim tão eu. De vez em quando preciso de alguém que me leve daqui, pra que ele venha à tona novamente e eu possa ir pra um sambão e cantar a noite inteira “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Walter Filho 08 Maio 2009 Overdose de vida
Será que é possível? Será que é possível se ver assim tão sozinho, refletido em imagens de paisagens tão belas por serem por si sós? Será possível não querer falar de si mesmo? Não se importar em mostrar os pontos, em levantar o troféu e astear à bandeira? Porque é nessa solidão de caos e calmaria que me encontro. Que sinto quem sou. Quando me calo é que não me sinto babaca. Quando não abro a boca pra mostrar o que sei é que me mostro mais interessante que a maioria. E quem disse que eu sou mais interessante que a maioria? Todo mundo acha que é mais interessante que todo mundo. Todo mundo pode tudo. Todo mundo ta certo. Todo mundo sempre vence. Todo mundo ta é errado. E eu me reservo a ter pena de todo mundo. Me incluindo nessa pena só por estar vivo. Porque como dói isso aqui. Como dói viver. Trabalhoso demais. E queria me resumir a momentos de puro êxtase e prazer, me resumir aos risos e dias de sol. Mais eu olho ao redor e não vejo ninguém. Ta todo mundo sozinho tentando se agarrar em qualquer ilusão de afeto. Eu não falo, mas tenho tanto, tanto pra falar. Queria tanto falar. Mas o que tenho pra falar nem sempre interessa. O que quero por pra fora me corrói e igualmente perturbaria aos outros. Ninguém quer engolir o resto do que digeri em doses pesadas e lentas. Ninguém quer dividir ou escutar, ninguém quer se envolver e morrer de prazer em descobrir o outro. O que eles querem é sentar numa mesa de bar e apontar, exemplificar, brincar e dá risadinhas idiotas, fazem piada do que não conhecem. Mentes abertas, jovens modernos, descolados. Com personalidade demais para serem iguais aos outros. Mas são tão bobos, tão bobos, meu Deus como são idiotas. Na tentativa vulgar de se distinguir se enrolam na mesmice de uma vida inventada onde se resumem no óbvio e o esperado. Onde nada se distingue, porque todos são iguais. Presos na tentativa de existirem por si só. Esquecendo que assumir quem se é, vivendo o que manda a consciência, é o que se faz existir, nada mais admirável do que alguém que não se deixa levar. E é por essas e outras que não me encaixo. Por essas e outras desisti de correr atrás de quem me siga nessa minha contra mão louca e perigosa demais. Nessa estrada curva onde caminho as pedras mudam de lugar e eu não paro nunca. Mas eu não quero te falar sobre o que sei, é justamente sobre o que não sei que escrevo. É pelo o que me perturba que deixo cair essas palavras no papel. É pelas minhas doenças emocionais e medos que me desdobro, me debulho em lágrimas. Me escuta, me salva desses meus medos, porque eu já não caibo mais dentro de mim, me dividir agora é o que resta como solução pra minha dor. E eu me recuso a me encaixar neles, me recuso a aceitar essas mentes que em nada me surpreendem, me recuso a deixar a correnteza me levar, mesmo sabendo que é muito mais fácil se deixar ser levado. Me recuso a abandonar minha história. Me recuso. Então vem. Vem, mas vem logo. Me arranca logo daqui. Me escuta e fala também, sim, eu quero escutar, mas me deixa falar primeiro, diz que me entende, que também se sente assim, que sabe do que eu to falando. Deixa eu me jogar nessa piscina com os raios de sol amarelando à tarde, banhando meu corpo da luz que me aquece, deixa, deixa eu sentir essa vida, essa vida de merda, que perturba, que me tira a paz, mas que é boa demais, boa demais. Deixa. Deixa eu ficar no telhado olhando por cima dessa cidade, porque assim me sinto grande, me sinto livre e preso, livre do mundo, preso na minha redoma impenetrável. E essa ilusão de segurança me dá força pra ir alguns passos mais a frente. Sabe por onde eu passei? Não? Então deixa eu te contar, deixa, deixa eu me abrir pra você. Deixa porque já não me suporto. Deixa porque esse tempo corre demais. Quebra todos os relógios e apenas prenda-se em mim. Concentre-se em mim. Será que um dia eu vou aprender que não tenho nada, que tudo me tem? Será? Será que um dia vou entender que essa vida não cabe em minhas mãos, que eu não controlo, sou controlado? Porque ninguém sabe de nada, nada, ninguém tem nada. O sol que nasce pra mim também nasce pra eles, e é esse saber que me faz sentir pena da ignorância alheia. Mas depois da dor sempre vem essa vontade de viver que brota aqui dentro. É um ar que puxo com força e encho os pulmões, numa tentativa absurda de engolir a vida por inteira e de uma vez. “Tenho feridas, mas faço valer todas as minhas cicatrizes.” (Filme Nome próprio) Walter Filho 04 Maio 2009 Enquanto não se quis mudar Sobrou. Quase sempre sobra alguma coisa. E quando você passou hoje de manhã por mim sobrou aquela dor no coração, aquele vazio, uma tristeza e a vontade de chorar. Eu queria sumir dali e ficar sozinho. Nos momentos seguintes não consegui me concentrar em mais nada a não ser na dor que o teu vazio me deixou. Você passou e segundos depois meus braços estavam tremendo e o estômago revirando querendo por pra fora alguma coisa. Eu não queria que fosse assim, eu realmente não queria. Eu poderia ter feito tanta coisa. Eu poderia ter feito diferente. Poderia ter quebrado o gelo e te surpreendido com um "Oi". Poderia ter te oferecido uma carona. Poderia ter te dado um "tchau". Mas eu não fiz. Não fiz porque não quis e ao mesmo tempo por querer demais e saber que isso não me levaria a nada. Isso mesmo. Eu queria demais. Queria demais te cumprimentar, mesmo sem grandes emoções, mesmo como uma qualquer. Queria ter te trazido pra perto e até te perguntado sobre como vai a vida, ou apenas "como vai?". Queria ter trocado expriências como antes, queria ter te falado um monte de coisas novas que aprendi. Mas sabe a emoção? Consegue entender a emoção? Aquela emoção que saía de você, de tudo o que me fez passar, aquele nervossismo que me dava quando te via, aquela raiva que me fazia chorar por tudo o que você fez, a dor dentro do peito que eu carreguei por tanto tempo. Tudo isso. Toda essa emoção. Se foi. Eu não sei pra onde nem como, mas se foi. E era essa mesma emoção que me faria te chamar pra perto e perguntar sobre o teu dia, mas ela não existe mais. Você desencantou-se. Pessoa comum novamente, sem muito a me oferecer. O que tinha de me dar já deu. E agora nada mais em mim doí por causa de você, nada em mim sente mais a dor do teu desprezo. Resolvi me reiventar esses dias, comecei essa semana, e comecei bem já que você me arrancou a amargura e me devolveu um sentimento que eu havia perdido, a paz de espírito dos que fizeram tudo pra dar certo, a conciência limpa de quem foi lá lutou e tentou, tentou, tentou... Até que cansou. E hoje, ah e hoje. Hoje eu to aqui escrevendo esse texto quebrando uma promessa que fiz a mim mesmo. To aqui correndo pela contramão da minha razão. To aqui quebrando as bobagens que o ódio me fez dizer em algum momento do passado. To aqui falando novamente em você. Hoje eu posso falar de você sem dor, sem lágrimas, sem emoção. Por que a ferida foi curada, porque você foi perdoada. Quando a ferida não mais doí, quando o câncer é curado, quando a morte é superada, a gente fala sem medo do que possa ouvir, porque se sabe que o que passou, passou. E não falar em você era um sinal claro de que você ainda habitava minha mente de uma maneira nada construtiva. Nossa quanta bobagem! quanta bobagem isso aqui. Poderia perder esse texto por aí, poderia jogar fora e apagar essa merda que não me faria falta. Falta. Sinto falta do que você era, do que um dia representou pra mim. Mas hoje, hoje já não cabe mais na minha vida, hoje eu já não me encaixo mais na sua. Eu poderia sair por aí e gritar teu nome pros quatro cantos do mundo, gritar pra dizer que me curei, que você passou. O ódio e toda a raiva se transformaram num carinho que sobrevive do passado. As lembraças que tenho de nós sempre vão estar vivas e eu queira ou não, eu admita ou não, nunca vou te esquecer. O que nós fomos um pro outro no passado nunca vai morrer. E mesmo que um dia você queira chegar perto de novo, mesmo que queira retomar o que um dia perdemos, é com dor no coração que tenho que dizer que não tem mais jeito, o mal feito já foi feito. Ou talvez o bem feito já tenha sido feito. Não é porque acabou assim que não tenha dado certo, você deu certo na minha vida até o dia em que não resolveu dar mais. Por isso te admiro como algo bom, como em cada xícara de café que vejo, como em cada música que me lembra você, como em cada pessoa que por acaso toca no teu nome de um jeito que eu sei você não é. Ou pelo menos achava, já que você mudou tanto. Você se perdeu num vácuo que eu não sei onde encontrar, suas intenções e sonhos, seus objetivos, não sei se ainda existem, mudou tanto. Você dizia uma coisa e correu ao contrário do que pretendia. Um amigo um dia me falou que "Não presta" é uma expressão muito forte pra ser usada pra uma pessoa, ninguém não presta, todo mundo tem uma utilidade. Mas eu posso dizer que você não presta pra mim, não mais. Prestou até o momento em que eu era o que era, até o dia em que você não quis mudar de rumo. Mas eu não a culpo pelas mudanças, você está viva, eu estou vivo, propensos a mudanças a cada segundo. Mas foi sua falta de caráter em ter chegado até mim e assumido essas mudanças que me machucou demais.Você cresceu, tenho certeza, eu também cresci. Cada um de uma forma diferente, cada um no seu mundo. E enquanto você estava satisfeita no mundo em que me tinha por perto, eu lhe fiz bem, mas quando você quis experimentar um outro lado dessa vida que já não me cabia mais entre você, eu comecei a lhe fazer mal. Mas não era preciso ter jogado fora assim por entre um espaçozinho do vidro do carro na rodovia, podia ter dobrado e jogado dentro do saquinho no carro mesmo. Seria melhor.Ficar sem explicações é terrível, você mesma odiava isso. É difícil demais lidar com pessoas como você, a tua infantilidade me machucou demais e tua falta de consciência me surpreendeu. Mas como o que fomos um dia se perdeu no tempo, esse texto também vai se perder por aí, tornando essa reflexão do passado um detalhe, apenas um leve perfume do que um dia foi uma amizade onde se falava em nunca se esquecer, nunca se abandonar. Talvez esteja certo. Foi certo. Foi tudo certo. Tenho certeza que nunca vamos nos abandonar. Porque toda vez que se ajoelhar sei que vou estar nas suas orações, e mesmo que sem querer, de vez em quando me pego orando por você. Te amei. Walter Filho 03 Maio 2009 O pateta que queria amar logo
Se pudessem me ver agora provavelmente me chamariam de inconseqüente, impulsivo. Mas o que é que eu posso fazer se não sou assim porque quero? É essa vontade de te amar logo de vez, de me prender logo em você que me deixa assim. É isso aqui dentro pronto pra sair, pronto pra ser de alguém. É tanta impulsividade que às vezes não me permito ver muito além, que não me deixa calcular os riscos, que me faz cegar pras possíveis derrotas ou decepções que possam haver pelo caminho. Sem falar nessa carreira louca pra ser logo feliz (como se eu já não fosse antes de você). Mas eu não posso me deixar levar assim, não eu não posso. Manter a compostura é o ideal seu moço, você sabe disso. É preciso fazer-se esperar, fazer-se desejar. Mas quem quer saber de regras de sedução quando os dois sabem muito bem que o que querem mesmo é logo se agarrarem logo de vez? Essa ansiedade de merda é que mais me mata, e por isso esse dever de se consertar um pouquinho e esconder essa vontade doida. Nem sei se você está na mesma sintonia, nem sei se pensa em mim tanto quanto tenho pensado em você. E eu me sinto assim tão bobo, tão idiota. Queria ao menos uma vez ser mais calmo, não me empolgar tanto com apenas uma possibilidade. Como por exemplo, já está escrevendo o segundo texto me referindo a você sem ao menos termos nada. Idiota, idiota demais. Mas sabe o que é isso? Isso é carência de se fazer e fazer alguém feliz. Bastou um “Quero te ter” pra me deixar assim. Desse jeito você nunca poderá ler isso, e descobrir que já estou nas tuas mãos? Nunca, jamais (pelos menos por enquanto). Um bobo que iria sofrer pelo fim de algo que nunca começou. Walter Filho |
| Meu coração desritmado no tempo, num beat baixinho de sofrimento... |